CATANDUVA PRECISA DE MAIS MÉDICOS?

“Desejo, com toda sinceridade, morrer inteiramente pobre, sem dinheiro, sem bens, sem dívidas e sem pecado”. (Padre Albino)
Temos assistido intenso e interessante debate na mídia sobre a assertividade de uma proposta do governo federal para importação de mão de obra médica no Brasil. A cada dia o debate vai ficando mais acalorado, com novos argumentos de quem é contra ou a favor da solução imediatista do governo.
Penso que a sociedade precisa entrar nesse debate até o presente momento protagonizado pelo governo, de um lado, e pela classe médica, de outro. As opiniões dos médicos são logo taxadas de corporativistas e tendentes à reserva de mercado e a do governo de inconsequente e pseudoassistencialista. Deixando as paixões de lado, creio ser possível achar o caminho do meio, cujos benefícios recairão diretamente sobre - e principalmente à população carente do Brasil.
Não se pode negar que o índice de médicos por cada mil habitantes brasileiros é muito inferior ao que seria desejável comparando-o com o de países desenvolvidos ou mesmo em desenvolvimento como o Brasil, com 1,8/1000, e a Argentina, com 3,2/1000.
Atribui-se grande parte do problema à falta de interesse dos profissionais recém-formados em atuar nas extensas áreas carentes, principalmente do norte e nordeste, concentrando-se, geralmente, no eixo sul/sudeste, que, além de melhor infraestrutura para o médico e seus familiares, oferece mais oportunidades de ganho.
Por outro lado, há tempos discutimos por aqui a necessidade de exames para atestar a capacidade profissional dos médicos recém-formados, na expectativa de evitar que os malformados coloquem em risco a saúde de futuros pacientes. Parece-me adequada essa medida, que certamente deveria ser aplicada aos médicos estrangeiros que quiserem se estabelecer no Brasil quer sejam brasileiros formados em outros países ou não.
Sou contra a reserva de mercado, mas é fundamental que se forneçam as mesmas condições para os competidores. Neste caso não seria diferente. Resta saber se os médicos importados seriam destinados prioritariamente às regiões carentes. Se o forem através de incentivos governamentais então será preciso que o governo também incentive os nativos em igualdade de condições. Se assim for, uma parte do problema poderá ser solucionada de imediato; a outra parte, ou seja, a infraestrutura adequada, precisará ser resolvida em seguida.
Mas, e Catanduva, precisa de mais médicos?
Segundo o projeto Conjuntura Catanduva 2012 (3ª ed.), a cidade possuía em 2010 – última estatística – 1.339 médicos, ou 3,8/1000 habitantes. É sem dúvida um índice comparável aos países mais desenvolvidos do mundo, superior até mesmo ao da Suécia (3,73) e Reino Unido (3,71).
Apesar disso, na prática não é isso que percebemos. Para começar, segundo a publicação do governo de Catanduva, do total de médicos registrados somente 57,58% atendem pelo SUS, o que derruba a estatística para 2,19/1000 habitantes. Aí já começam os problemas: dos médicos que atendem pelo SUS, a grande maioria se encontra na clínica médica (22,31%), na clínica cirúrgica (11,41%), na ginecologia e obstetrícia (7,26%) e anestesiologia (3,89%). As demais especialidades vêm abaixo disso e em algumas nem sequer possuem médico.
Em algumas situações, apesar de existirem os profissionais, é muito difícil marcar uma consulta ou procedimento com eles ou porque dedicam apenas uma pequena parcela do seu tempo aos pacientes SUS ou, quando não, dão expediente em tantos lugares ao mesmo tempo que se torna quase impossível um contato pessoal com eles, o que pode evidentemente comprometer a devida atenção que cada paciente merece. Não é incomum reclamações de pacientes pela falta de atenção do profissional médico, nem mesmo por não encontrá-los quando deveriam estar cumprindo plantão presencial ou à distância.
Recentemente a FPA teve dificuldades para colocar o AME em funcionamento pleno por falta de profissional médico. Mesmo oferecendo remuneração melhor que a do SUS não havia interessados em determinadas áreas, o que nos obrigou a importar de cidades vizinhas.
Também no plano de saúde (PAS) encontramos dificuldades para preencher determinadas especialidades. A conclusão lógica, por estas e por outras razões, é que Catanduva também precisa de mais médicos, ainda que em áreas específicas, mas também precisa.

Dr. José Carlos Rodrigues Amarante
Presidente da Diretoria Administrativa

Sair