MAIS MÉDICOS

Escrevi, na edição nº 203 deste jornal, de junho de 2013, sobre um debate nacional intenso, naquele momento, sobre o programa “Mais Médicos”, que o governo federal, através do Ministério da Saúde, pretendia implantar.
O objetivo do programa, segundo o então Ministro Padilha, era suprir, de forma imediata, a carência de médicos assistencialistas nas longínquas regiões carentes do Brasil e nas áreas periféricas dos grandes centros urbanos. Foram divulgados números estatísticos comprovando a relação percentual de médicos em relação à população, amplamente desfavorável ao Brasil, em comparação com outros países, até mesmo da América Latina.
Uma das alegações era que o avanço demográfico brasileiro não foi acompanhado pela formação em número adequado de profissionais médicos, por falta de abertura de vagas através de novas faculdades de medicina. Na outra ponta, as sociedades e órgãos representativos da classe médica procuravam rebater os argumentos do governo afirmando que não faltavam médicos, mas condições adequadas para o exercício da medicina, inclusive remuneração. Alegavam também que médicos estrangeiros não poderiam atuar em território nacional sem a devida comprovação de competência, como a que se exige para os profissionais nativos; qualidade era a maior preocupação.
No meio disso tudo estava, assim como continua, a sociedade, que em momento algum foi convenientemente ouvida. Por fim, o programa foi implantado com a vinda de milhares de médicos estrangeiros, na sua grande maioria cubanos.
Hoje me parece que o debate já não gira tanto em torno da qualificação dos importados, mas sobre as condições contratuais em que estão atuando e sendo remunerados, em comparação com os demais colegas médicos.
Como naquela ocasião, meu objetivo aqui não é entrar no mérito da qualificação, nem na forma de contratação/remuneração dos profissionais importados, muito menos se o programa tem ou não conotações políticas. Continuo achando importante o debate sobre a necessidade ou não da importação dessa mão de obra e, principalmente, se os hospitais de Catanduva e região têm ou não falta de médicos para atender a população usuária do SUS.
Demonstrei, também estatisticamente, que embora aqui haja número suficiente de médicos atuando, contudo, quando comparamos o número dos que atendem pelo SUS, nossas estatísticas se assemelham às nacionais, ou seja, não há número suficiente de médicos, principalmente em determinadas especialidades como, por exemplo, otorrinolaringologia, urologia, ortopedia, oftalmologia e a mais crítica delas, a unidade de urgência e emergência, para ficar só em alguns exemplos.
Nesse período pude também constatar que boa parte dos médicos que aceitam trabalhar pelo SUS, o fazem de forma negligente, com pouco interesse justamente por saberem da escassez de mão de obra em determinada especialidade. Não porque não existam profissionais suficientes, mas porque os que têm não querem trabalhar para o SUS ou, no mínimo, não aceitam entrar na escala de plantão.
O motivo, embora nem sempre explícito, é a remuneração. Alegam que há muitos anos o SUS não reajusta a tabela de procedimentos e preferem atender a convênios e particulares, geralmente melhor remunerados. Outra das alegações recai sobre as condições de trabalho dentro dos hospitais, tendo muitas vezes que trabalhar com equipamentos sucateados, falta de material e medicamentos e, às vezes, leitos.
Não posso deixar de admitir que eles têm razão, em parte. Todavia, penso que nenhuma das razões pode comprometer o atendimento à população. Até porque, pela liturgia da profissão, jamais poderiam deixar de atender ou atender com descaso em razão de remuneração.
Em sentido contrário, os hospitais da Fundação Padre Albino, mesmo com altos prejuízos, jamais deixaram de atender. Mesmo a remuneração dos médicos que atendem pelos hospitais Padre Albino e Emílio Carlos, embora baixa, reconheço, em momento algum deixou de ser repassada.
Com toda essa dificuldade, a Fundação Padre Albino ainda investiu no ano passado mais de oito milhões de reais na compra de novos equipamentos e em reformas estruturais, em grande parte com recursos próprios. Apesar disso, por falta de comprometimento de profissionais médicos de algumas especialidades, a Fundação continua enfrentando dificuldades no cumprimento de metas contratuais e na qualidade do atendimento, o que acaba refletindo nos pacientes, que se não ficam desassistidos, muitas vezes acabam mal atendidos. Embora pontuais, não são admissíveis, tanto pelo lado humano quanto pelo institucional. Afinal, com ou sem dinheiro, em condições adequadas ou não, a Fundação continua a cumprir seu papel institucional.
“Ser médico”, diz o Dr. João Ladislau Rosa, Presidente do Cremesp, “deveria ser sempre uma opção diretamente relacionada ao compromisso social. Afinal, quem trata de saúde, de vidas humanas, tem de focar o próximo, o bem-estar dos cidadãos.”
Assim, a Fundação Padre Albino espera que, independentemente da polêmica, a população não fique jamais desassistida ou assistida com descaso. Que os médicos do seu corpo clínico tenham consciência de suas responsabilidades e contem sempre com o máximo empenho da diretoria no sentido de sempre buscar a eficiência, a qualidade e o bom atendimento. Do contrário, continuarão justificando plenamente a ação governamental para MAIS MÉDICOS.

José Carlos Rodrigues Amarante
Presidente da Diretoria Administrativa

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