O papel da imprensa e os hospitais do SUS

Caro leitor. Quero hoje partilhar com você alguns aspectos da experiência de ser presidente da Diretoria Administrativa da Fundação Padre Albino, uma instituição filantrópica privada, sem fins lucrativos, que não remunera seus conselheiros e diretores por força de lei e de seu Estatuto.
Alguns desses aspectos são gratificantes, outros preocupantes e outros, ainda, desgastantes. Os aspectos gratificantes decorrem de saber que o meu trabalho beneficia centenas de milhares de pessoas de todas as camadas sociais, prioritariamente aquelas de renda mais baixa, que dependem unicamente do SUS para prevenir ou tratar suas enfermidades.
Os aspectos preocupantes decorrem do subfinanciamento do sistema, insuficiente para cobrir grande parte dos custos dos procedimentos e mais preocupante ainda é não saber até quando as Santas Casas e Hospitais Filantrópicos aguentarão bancar essa conta.
Por fim, os aspectos desgastantes decorrem de ficar constantemente prestando esclarecimentos à população em função de algumas notícias veiculadas pela imprensa. Vira e mexe os hospitais da Fundação Padre Albino estão no noticiário local, retratados de forma negativa, quando nem sempre, ou na maioria das vezes, não teve culpa pela situação de excesso momentâneo de afluxo de pacientes (enésimas vezes esclarecidas não ser de responsabilidade dos hospitais o atendimento básico do SUS), ou retratando fatos inusitados, ainda não devidamente esclarecidos, apontando culpados pelo acaso.
Não tem sido fácil.
Quero deixar bem claro que não pedi, nem desejei esta missão; contudo, uma vez chamado ao serviço voluntário vou até o limite para bem desempenhar meu papel. Pode até parecer enfadonho voltar ao assunto, mas não posso me esquivar de sair em defesa da instituição sempre que necessário.
Tenho plena consciência da importância democrática de uma imprensa livre e opinativa, garantia fundamental da liberdade e dos direitos de todos os cidadãos, especialmente os de cunho social, nos quais se inclui o direito à saúde, à educação, saneamento básico etc.
Uma imprensa com liberdade de expressão tem também o importante papel de denunciar malfeitos, corrupção, abuso de autoridade e o desrespeito aos direitos do cidadão de qualquer classe social, credo religioso, orientação sexual e tudo mais que a Constituição garante. No caso específico dos hospitais da Fundação Padre Albino, sem desmerecer o importante papel da imprensa, creio que ela vem errando o alvo em muitas de suas críticas.
Muitas das dificuldades que enfrentamos - a maioria delas admitidas em diversas oportunidades, porém cuja solução passa necessariamente pelo aporte substancial de recursos financeiros, materiais e humanos, e, portanto, fora do nosso alcance direto - têm sido tratadas pela imprensa como se fosse omissão da Diretoria Administrativa, o que não é verdade.
Todos conhecem as mazelas da saúde no Brasil. O problema é nacional e não aflige somente a nossa cidade, embora seja com ela que devemos nos preocupar.
A tabela SUS, que remunera os serviços prestados pelos hospitais contratados, não é reajustada há anos, o que causa um rombo financeiro da ordem de R$ 5 bilhões/ano para as filantrópicas, nas quais os hospitais da Fundação estão incluídos. Com isso torna-se impossível investir em melhorias hospitalares e na remuneração de mão de obra e, sobretudo, no aumento do número de leitos e equipamentos modernos, fundamentais para um bom atendimento. Para agravar, não há médicos disponíveis em várias especialidades, nem enfermeiros suficientes. E o motivo não é só a baixa remuneração. Grande parte dos médicos recém-formados não quer trabalhar para o SUS e a maioria dos estudantes em cursos de enfermagem sequer pretende ingressar na profissão.
Problemas, sabemos, acontecem em todos os lugares. Mas no setor de saúde eles são sempre mais evidenciados, tanto porque envolvem risco de vida humana, quanto à ansiedade, às vezes extremada, dos familiares do doente que querem uma solução rápida e efetiva para seu ente querido.
A questão é que é exatamente isso que nós também queremos, uma vez que nós mesmos e nossos familiares também dependemos de um serviço de saúde rápido e eficiente. As autoridades competentes sabem disso. Não temos poder para mudar essa situação sem a ajuda governamental.
Acredito que o papel da imprensa deve ser o de relatar os fatos com a devida isenção e sem emitir juízo de valor enquanto não houver comprovação de responsabilidades. Caso contrário estaria violando a própria lei de imprensa. Execrar publicamente uma instituição séria com base apenas em relato carregado de emoção de parentes de doentes pode provocar estragos irreparáveis à imagem de pessoas e instituições.
Não é nossa pretensão estar acima, nem além da notícia, desde que isenta e imparcial. Até porque a Fundação Padre Albino nunca se negou a esclarecer os fatos e punir os responsáveis, quando legalmente possível o esclarecimento e, se de fato, houver culpados. Supor culpa ou erro de alguém carregando ainda de emocionalismo a notícia não me parece digno de ser chamado jornalismo responsável.

José Carlos Rodrigues Amarante
Presidente da Diretoria Administrativa

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