A FPA e o Terceiro Setor

"Desejo, com toda sinceridade, morrer inteiramente pobre, sem dinheiro, sem bens, sem dívidas e sem pecado". (Padre Albino)

O período eleitoral que estamos vivendo enseja muitas questões que afetam a vida do cidadão brasileiro, em especial aquelas voltadas aos temas da saúde, educação, saneamento básico, carestia, etc. Mas talvez nenhuma delas afete mais a vida do brasileiro que a saúde.

Via de regra nós não nos preocupamos muito com o tema, até que nós ou alguém de nossa família seja acometido por alguma doença grave ou não tão grave. Nesse momento lamentamos não ter um plano de saúde e termos que nos sujeitar ao atendimento pela rede pública ou pelos hospitais que prestam serviço público: as conhecidas entidades filantrópicas. E não raras vezes exigimos desses órgãos atendimento como se fôssemos clientes particulares. Isto é simplesmente impossível! Não deveria ser de desconhecimento de ninguém, nem dos clientes particulares e muito menos dos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS), a situação econômico-financeira das Santas Casas do Brasil.

Segundo a CMB (Confederação das Santas Casas de Misericórdia do Brasil), as 2.100 Santas Casas de Misericórdia do Brasil deviam R$ 11,2 bilhões até maio passado, podendo chegar aos R$ 15,0 bilhões até o final do ano se nada for feito. Isto significa que para atender a todos os usuários do SUS, as Santas Casas tiveram que tirar do seu próprio bolso dinheiro que não tinham. Nem por isso deixaram de atender os pacientes do SUS.

Muitos ainda cometem o desplante de criticar o governo pela isenção (na verdade imunidade constitucional) tributária para esses hospitais, como se isso fosse crime. Se esquecem que as filantrópicas (entidades sem fins lucrativos) fazem o impossível para cumprir o dever constitucional do governo de promover a saúde da população, com os parcos recursos que recebem, muito além da referida isenção.

Como já disse recentemente neste espaço, segundo a CMB, de cada R$ 100,00 gastos pelos hospitais filantrópicos apenas R$ 65,00 são reembolsados pelo sistema. Claro que existem muitas instituições mal administradas e que poderiam reduzir bastante seus custos. Ainda assim ficariam no prejuízo, considerando os altos custos dos serviços de saúde no Brasil. Entre os principais motivos da elevação desses custos estão o envelhecimento da população e os constantes avanços tecnológicos, tanto na área de diagnósticos quanto no tratamento dos doentes.

Os hospitais filantrópicos, geralmente administrados por fundações privadas (terceiro setor), têm como dirigentes voluntários que, apesar de nada ganharem para assumir tamanha responsabilidade, são pessoas com pouca ou nenhuma formação profissional e experiên­cia que o cargo exige. "A profissionalização da gestão na área da saúde deixou de ser uma vantagem competitiva ou um diferencial da instituição, tornando-se um determinante básico, como na maioria dos outros setores da economia", afirma Álvaro Escrivão Júnior em recente análise do setor no jornal Folha de São Paulo.

Não por outro motivo, muitos hospitais buscam hoje no mercado profissionais gabaritados para tentar reverter essa situação de constantes instabilidades, visando não só os bons resultados, mas perenizar esses resultados através de uma administração eficiente e transparente.

A situação econômico-financeira da Fundação Padre Albino é muito sólida, porém, não difere das demais instituições do gênero quanto aos resultados da sua área da saúde. Por isso, seus dirigentes, cientes das suas responsabilidades, buscam, através de várias ações coordenadas, reverter essa situação antes que se torne insustentável.

Em seu dever de casa, contratou uma das mais renomadas empresas no ramo de reorganização e reestruturação empresarial, a KPMG, com dois objetivos principais, entre outros: a redução de custos e a preparação para uma gestão profissionalizada. Estamos já na etapa de implantação das ações (5ª etapa), que deverá durar alguns meses. Na outra ponta buscamos agregar novos recursos, não só governamentais, através de reivindicações constantes para o reajuste da tabela SUS, mas também na iniciativa privada e na população em geral, para quem, ao final, os benefícios são revertidos.

Por isso estão sendo reativadas duas importantes ações já existentes, mas que estavam praticamente esquecidas: o projeto "Este coração continua batendo por você", que arrecada doações através da conta de energia elétrica, em parceria com a CNEE, e o Nota Fiscal Paulista, que transfere recursos das notas fiscais que o consumidor abre mão (não coloca o número do seu CPF). Esses recursos não são vultosos, mas são de uma importância incomensurável para as despesas básicas dos hospitais e contribuem diretamente para a assistência social da própria Fundação nos casos não cobertos pelo SUS ou planos de saúde.

É muito importante que todos nós - dirigentes, funcionários, usuários, alunos e a população em geral - façamos a nossa contribuição e, mais importante ainda, que conversemos com nossos parentes, amigos, vizinhos para que eles também façam sua contribuição.

O espírito de Monsenhor Albino certamente se regozijará com isso e a Fundação continuará a prestar os serviços de saúde com qualidade, como sempre fez.

Dr. José Carlos Rodrigues Amarante

Presidente da Diretoria Administrativa

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