AO MESTRE, COM RESPEITO.

Ao longo de nossa existência conhecemos muitas pessoas. A algumas dessas pessoas nutrimos sentimentos íntimos especiais: pais, irmãos, esposa, marido, filhos, netos etc. A outras nutrimos sentimentos não tão especiais, mas de valor equivalente: parentes, amigos, colegas escolares ou de trabalho, pessoas que admiramos por sua personalidade, habilidades artísticas, dedicação às causas sociais ou espirituais etc. Outras, ainda, além do sentimento de admiração, provocam-nos sentimento de respeito e gratidão.
Geralmente neste último grupo estão inúmeros mestres (professores) que dedicaram grande parte de sua vida não só à transmissão do conhecimento, mas, sobretudo nos ajudaram na formação moral, intelectual, política, social etc, ensinando-nos também a pensar, criticar e trabalhar sempre para a construção de um mundo novo onde possa imperar a tolerância, o respeito mútuo, a fraternidade e, acima de tudo, a igualdade social.
Tive, assim como a grande maioria daqueles que tiveram a oportunidade de frequentar os bancos acadêmicos, vários professores com esse perfil. Todos inesquecíveis. Mas alguns são-nos mais inesquecíveis que outros, por vários motivos: permanecem próximos da nossa vida profissional e cotidiana, permanecem ativos por longos anos, fizeram-se admirar por não terem medo ou receito de expor suas ideias ainda que não em sintonia com a maioria das pessoas, governos ou regimes, por sua postura impoluta e altiva (neste caso desprovida de qualquer arrogância ou soberbia mesquinha) e, em alguns casos, por obras deixadas para a posteridade que, independentemente de serem ou não reconhecidas contemporaneamente ao autor, com certeza se tornarão referências para futuros pensadores.
Falo aqui de um ilustre, respeitado, admirado e elegante professor de várias gerações de catanduvenses – e de não catanduvenses ou catanduvenses por adoção, como eu – Doutor, Sociólogo, grande escritor e eterno Professor VICENTE CELSO QUAGLIA, de quem tive a honra de ter sido aluno nas décadas de setenta e oitenta no Colégio Comercial Catanduva e na Faculdade de Administração de Empresas de Catanduva, ambos pertencentes à Fundação Padre Albino, hoje Faculdades Integradas Padre Albino. Hoje no gozo de merecida aposentadoria, ele “fez a cabeça” de muitas gerações de alunos, mormente pela sua preocupação com o desequilíbrio econômico da sociedade, fonte eterna de conflitos e guerras entre humanos.
Mesmo na inatividade laboral formal, o eterno Professor se mantém atualizado e conectado aos avanços e vicissitudes da sociedade moderna, da qual, felizmente, ainda faz parte. Encontrei-o recentemente, num momento de consternação pelo falecimento de amigo comum, e provoquei-o sobre a ausência de seus prazerosos artigos publicados regularmente na imprensa local ao que me respondeu que já não mais publicava, mas que fazia questão de enviar-me cópia do seu último artigo publicado nas páginas de um jornal local nos idos de 2014. E assim o fez. Na verdade eu já o havia lido quando da publicação, mas foi novamente um prazer relê-lo, tanto pela elegância e perfeição na escrita quanto pela análise perfeita do contexto e da atualidade do assunto.
Versa o artigo sobre o livro O Capital (Intrínseca), de Thomas Piketty, publicado recentemente em quase todos os países do mundo, inclusive no Brasil, com grande repercussão na imprensa, entre os economistas, na academia e até mesmo entre os não intelectuais, mas que se interessam pelo futuro da humanidade, com ou sem capitalismo (termo que, pelo menos para os iniciados, induz à ideia de liberalismo econômico e, portanto, à fonte permanente de desigualdade social, caso não haja um mínimo de controle estatal).
Sua análise, como disse, é perfeita à medida que concorda com o autor sobre a necessidade da taxação progressiva sobre grandes fortunas, geralmente não construídas pelas gerações favorecidas, mas conquistadas pela mera transmissão hereditária, sem o mínimo esforço destes enquanto que para a grande maioria dos demais, mesmo tendo habilidades e boa formação, é difícil senão impossível competir em igualdade de condições. O resultado é que o grande capital fica cada vez mais concentrado nas mãos de uma parcela cada vez menor da humanidade. Há solução? Parece que sim, mas falta vontade política dos governos que se sucedem ao longo dos séculos e preferem sempre manter o status quo ante, ou seja, que permaneça tudo como está.
Querido Professor, rendo-lhe aqui minhas humildes homenagens como seu ex e eterno aluno e também como Presidente da Diretoria Administrativa da Fundação Padre Albino, instituição que muito honrou em tê-lo como Mestre. Se até aqui cheguei foi porque um dia tive o privilégio de ser contemplado, ainda que minimamente – antes por falta de capacidade minha – com o seu extenso cabedal de conhecimento e convicção ideológica.
Minha admiração, meu respeito e meu muito obrigado Professor.

José Carlos Rodrigues Amarante
Presidente da Diretoria Administrativa

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