DENGUE

Espero que estas mal traçadas linhas, ao chegarem, encontrem você e os seus gozando de plena saúde, felicidade etc. Era mais ou menos assim as cartas trocadas entre familiares que se distanciaram pelas circunstâncias da vida, num passado ainda recente, quando não havia os meios de comunicação e locomoção ágeis como agora e tudo era transitado pelos correios ou “em mãos”.
Recordo isto porque quando este jornal estiver chegando às suas mãos não dá para saber como estará a epidemia de dengue que assolou Catanduva entre o final de 2014 e o início de 2015. Escrevo, inclusive, sob os efeitos maléficos da doença da qual me encontro vitimado. Espero, sinceramente, que nem você nem ninguém dentre os seus tenha sido acometido pela incômoda – e em alguns casos, fatal – doença.
Segundo estatísticas oficiais divulgadas, o número de infectados no início deste mês de março (02/03) era de 3.682 pessoas e mais de 4.497 esperando pela confirmação ou não do resultado dos exames. Mais tarde os números foram se multiplicando. A percepção que ficou, contudo, pelo volume de atendimentos nos dois hospitais da Fundação e pelas informações internas dos médicos e administradores, é que esse número poderia ser exponencialmente muito maior; talvez milhares de casos.
Ficou evidente também um sentimento de indignação das pessoas nas ruas, nos ambientes de trabalho, em rodas de conversa, nas portas dos hospitais e, sobretudo, na imprensa, com a situação. Não era para menos, pois todos tinham a percepção de que não precisaria ter sido assim. Nos meses finais de 2014 e, se não me falha a memória, também no final de 2013, o Ministério da Saúde havia divulgado um mapa da dengue, onde alertava para os riscos de epidemia nos municípios brasileiros. E Catanduva constava entre aqueles classificados em alerta, ou seja, com possibilidade de epidemia. Não se trata aqui de buscar culpados, evidentemente, mas não podemos também ignorar que alguma coisa (ou alguém) falhou nas medidas preventivas absolutamente necessárias para se evitar uma epidemia e, mais grave, mortes por complicações em decorrência da contaminação pelo Aedes Aegypti. Ou não teria o mínimo sentido os alertas do Ministério da Saúde. Por outro lado, nem todos os municípios tiveram surtos de dengue.
Certamente que saúde pública não é responsabilidade só dos governantes. Cada cidadão também deve fazer a sua parte - e vale registrar que houve, sim, negligência da população. Porém, a responsabilidade maior é sempre da autoridade pública a quem cabe tomar as iniciativas, através de seus departamentos competentes, e instar permanentemente a população a um comportamento preventivo.
O resultado foi que, por falta de ação no momento adequado, houve superlotação nos postos de saúde, nas unidades básicas, na unidade de pronto atendimento e, claro, nos hospitais da Fundação Padre Albino.
Nesse período estive presente nos dois hospitais tanto como administrador quanto como vítima da dengue. Eu e alguns familiares meus. Pude constatar in loco que o trabalho de toda a equipe foi primoroso, dentro das reais possibilidades de enfrentar um surto epidêmico ou qualquer outra crise para as quais não estamos preparados, por razões óbvias. Houve demoras? Sim! Houve descontentamentos? Sim! Houve negligência, imprudência, imperícia ou maus tratos? NÃO! Pelo contrário, tudo foi feito como muito amor, carinho e respeito ao cidadão.
A equipe se desdobrou vinte e quatro horas por dia e sete dias por semana para fazer o melhor possível, diante da inusitada situação. E nisso todos foram afetados, tanto os usuários do SUS quanto os conveniados ou mesmo os particulares. Ninguém escapou de certa demora, porém, ninguém ficou sem atendimento. Importante salientar que, legalmente, o primeiro atendimento em casos de infecção por dengue não está necessariamente vinculado ao Pronto Socorro do Hospital Padre Albino por ser uma afecção classificada como saúde básica e, portanto, sob a responsabilidade dos municípios. Contudo, por sermos um hospital terciário (média e alta complexidade) e com Pronto Socorro de “portas abertas”, nenhum cidadão que nos procurou deixou de ser atendido; mesmo com certa demora.
Os hospitais Padre Albino e Emílio Carlos atenderam a todos, referenciados e não referenciados, conveniados e particulares, demonstrando mais uma vez seu compromisso para com o cidadão e o cumprimento de sua inarredável missão.
Desejo, nesta oportunidade, parabenizar a equipe de médicos, enfermeiros, administradores, professores, preceptores, residentes, alunos do 5º e 6º anos de medicina, atendentes, faxineiros, enfim todos dos hospitais da Fundação Padre Albino, que de alguma forma colaboraram efetivamente para um bom atendimento, dentro das reais possibilidades, aos afetados pela inoportuna e previsível doença.

José Carlos Rodrigues Amarante
Presidente da Diretoria Administrativa

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