A Campanha da Fraternidade 2015, a Fundação Padre Albino e a Associação de Assistência ao Hospital

Acaso é este o jejum que me agrada, o dia em que o homem se mortifica? Curvar a cabeça como um junco, deitar-se num leito de saco e de cinza? É a isto que chamais jejum e dia agradável a Javé? Não é antes este o jejum que eu prefiro: quebrar as correntes iníquas, desatar os laços do jugo, deixar ir livres os oprimidos e quebrar todo jugo? Não consiste em repartir o pão com o faminto, introduzir em casa os desabrigados e vestir quem está nu, sem desviar os olhos de tua gente? (Is 58, 5-7)

A Campanha da Fraternidade de 2015, com o tema “Fraternidade: Igreja e Sociedade” e o lema “Eu vim para servir”, propôs a todos os cristãos católicos importante reflexão de vida enquanto crentes e, ao mesmo tempo, cidadãos nacionais.
Surgida a partir de uma ação de três padres da Cáritas Brasileira em 1961, em Natal (RN), a Campanha da Fraternidade “visa despertar e nutrir o espírito comunitário e a verdadeira solidariedade na busca do bem comum, educando para a vida fraterna, a justiça e a caridade, exigências éticas centrais do Evangelho.” (CNBB). Em seu bojo despontam três vertentes principais: a conversão, a renovação interior e a ação comunitária. Sem ser mais relevante que as demais, contudo, trataremos aqui da terceira das principais vertentes, ou seja, da ação comunitária, porque induz à prática de gestos concretos de fraternidade.
Com temas voltados à realidade socioeconômica e política brasileira, a partir de 1985 as Campanhas procuraram evidenciar situações que causam sofrimento e morte de cidadãos menos favorecidos. Uma delas certamente é a saúde. Relegada a um segundo ou terceiro plano de prioridades, os sucessivos governos do Brasil têm desprezado esse direito constitucional dos brasileiros, que convivem diariamente com um sistema falido em razão do subfinanciamento. Omissão esta que gera hospitais sucateados, insuficiência de leitos, de remédios, médicos, salas cirúrgicas e muito mais como todos bem sabemos.
Tema da Campanha da Fraternidade de 2012, o sistema de saúde brasileiro praticamente não saiu do lugar. Mesmo com o projeto de lei de iniciativa popular, com o apoio da Igreja, o “Saúde + dez”, que reivindica 10% das receitas brutas da União para a saúde pública, não andou desde 2013.
Os hospitais da Fundação Padre Albino, integrantes do Sistema Único de Saúde (SUS), também são vítimas dessa política nefasta e trabalham ano após ano no vermelho. Disponibilizando em torno de 70% de seus leitos no Hospital Padre Albino e 100% no Hospital Emílio Carlos, a Fundação não consegue, com os serviços prestados a particulares e convênios, cobrir o rombo causado pelo subfinanciamento do sistema do Ministério da Saúde: aproximadamente, para cada R$ 1,00 gasto, apenas R$ 0,60 é reembolsado pelo SUS.
Por vezes, os hospitais da Fundação têm sido alvos de críticas em razão de suas infraestruturas e demora no atendimento. Mas a conta é simples: se não conseguem, em razão do subfinanciamento, sequer cobrir os custos operacionais, como então investir em melhorias físicas e outras? Padre Albino poderá ser Santo, mas talvez nem ele pudesse realizar tal milagre! É neste momento que entra a Campanha da Fraternidade. Nós, cristãos católicos conscientizados, não podemos cruzar os braços diante de uma situação como essa. Temos a obrigação e o dever de agir, tanto como cidadãos quanto homens e mulheres de fé. Os documentos do Concílio Vaticano II já nos admoestavam que nós somos “chamados a servir”. “No servir formar”. “No servir, construir uma sociedade sempre mais fraterna, justa e solidária”. Exemplos é que não faltam.
Recentemente, alguns probos cidadãos e cidadãs catanduvenses, cônscios de suas responsabilidades e movidos pela solidariedade, deram o primeiro passo em direção dos mais necessitados. Criaram a Associação de Assistência ao Emilio Carlos (AEC) com a única e exclusiva finalidade de reformar uma ala do gigantesco Hospital Emílio Carlos, a C2 PAR, que abriga exclusivamente usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).
Capitaneada pelo Sr. Sylvio Antonio Bueno Neto e coordenada pelo sempre eficiente Dr. José Carlos Buch, a AEC foi à luta e através de dois eventos musicais arrecadou verbas mais que suficientes para reformar, com requintes de primeira, a ala que abriga nada mais nada menos que 22 leitos hospitalares, arcando com aproximadamente 70% dos custos. A ideia surgiu de outro ativo cidadão catanduvense, o Sr. Marcelo Gimenes, que a partir de uma visita a um parente internado naquela ala não ficou de braços cruzados. Provocou seus pares e o resultado está lá para todos verem e os usuários desfrutarem com dignidade.
Como disse o profeta Isaías, pode haver jejum mais agradável a Deus do que este?

José Carlos Rodrigues Amarante
Presidente da Diretoria Administrativa

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