Escrito nas estrelas

O Brasil e por consequência nós brasileiros aqui residentes vivemos atualmente uma das mais graves crises econômicas dos últimos doze anos, cujas consequências podemos sentir na vida cotidiana, que afeta muitas das nossas necessidades básicas, tais como saúde, educação, custo de vida, lazer etc.
Para quem acompanha, mesmo que à distância, o cenário político e econômico do país sabe que essa foi uma crise anunciada, ou seja, estava escrito nas estrelas. A história da democracia moderna – e mesmo em algumas não democracias – está repleta de exemplos de governos populistas, que não medem consequências para se manter no poder. A conta disso fica, evidentemente, para o povo. Sempre o povo!
A saúde, direito do cidadão e dever do Estado, é sempre uma das primeiras a sofrer cortes orçamentários em tempos de crise. Ora, a situação, que já não era boa, poderá ficar caótica com o corte de mais de onze bilhões de reais anunciado pela equipe econômica. E aí, vamos ficar calados? Não me parece ser uma boa atitude.
Tema sempre muito recorrente, contudo, a maioria de nós só lembra de que temos direito a saúde, e com qualidade, quando nós ou alguns dos nossos precisamos de serviços médicos, hospitalares, enfermeiros, ambulâncias etc. Geralmente somos muito conformados com situações com a qual não contribuímos, ou melhor, contribuímos, e muito, através de uma carga tributária vexatória, e acabamos por pagar um preço injusto. Nesse momento é que vamos nos lembrar de criticar os hospitais sucateados, a demora no atendimento, a falta de leitos, a excessiva demora em sermos atendidos e por aí vai.
Por que não nos preocuparmos também quando não estamos com problemas de saúde? Por que não cobramos o poder público constituído pelo descaso com que a saúde é tratada no Brasil há anos? Por que não procuramos pelos gestores das entidades filantrópicas para perguntar quais são as dificuldades por que passa a instituição e ajudamos na luta por melhores condições?
Talvez seja porque quando é o outro que está precisando isso não nos afeta, não nos comove e não é problema nosso.
Temos que ter consciência de que não é assim que funciona. Temos que aprender a reivindicar nossos direitos individuais e também os coletivos. Para o bem de todos e não só de alguns.
Há anos as Santas Casas e Hospitais Filantrópicos vêm lutando incansavelmente por melhorias na saúde, sucateada pelo sub-financiamento do SUS. Precisamos deixar de ser inocentes, para não dizer omissos. Não existe almoço grátis. Se quisermos uma saúde de qualidade precisamos ter consciência de que isso só é possível com recursos suficientes; aqui ou em qualquer lugar do mundo. Bilhões são gastos em construção de estádios fantasmas e outros tantos bilhões se vão pelo ralo da corrupção e da má gestão, enquanto ficamos inertes aguardando as coisas piorarem. Só levantamos a voz na porta do pronto socorro para ofender os atendentes que estão ali fazendo o seu trabalho, com dificuldade é certo, mas estão ali dando a cara a tapa, enquanto aqueles que nós elegemos para nos proporcionar ao menos uma saúde digna estão muito distantes da nossa indignação, desfrutando das benesses de seus régios salários, para não ir mais além.
Os hospitais da Fundação Padre Albino, com todas as dificuldades impostas pela escassez de recursos, jamais deixaram de atender a todos os que os procuram, dentro de suas reais possibilidades e, às vezes, até mesmo além delas. Apesar das dificuldades estamos, através de um trabalho sério e competente, fazendo o dever de casa.
O Hospital Padre Albino foi avaliado recentemente dentro do Programa Santas Casas Sustentáveis e, dentre os 18 (dezoito) Hospitais Estruturantes do Estado de São Paulo ficou em segundo lugar no Estado e em primeiro lugar na Regional de São José do Rio Preto. O Hospital Emílio Carlos, avaliado junto a outros 950 estabelecimentos do gênero através de pesquisa de satisfação do usuário promovida pela Secretaria Estadual de Saúde por meio de mala direta, atingiu a média de 88,2% de aprovação em todos os quesitos, alcançando assim o conceito “ótimo”, acima da média geral dos avaliados.
O problema é que os cortes anunciados na saúde trarão novas dificuldades para as instituições, em especial àquelas que já estão no limite de suas forças. Só no Estado de São Paulo já são mais de 90 (noventa) Santas Casas em processo de fechamento ou de intervenção. Em razão disso a Fehosp – Federação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos do Estado de São Paulo e a CMB – Confederação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos do Brasil estão lançando mais uma campanha de conscientização da população a fim de pressionar as autoridades competentes a olharem com prioridade para a saúde dos brasileiros: “Acesso à Saúde – Meu Direito é um Dever do Governo”. No dia 29/06 será o dia “D” de Ação nos Municípios; no dia 13/07 será o dia “D” de Ação nos Estados e no dia 04/08, será o dia “D” de ação nacional em Brasília – DF. Serão momentos únicos para demonstramos nossa indignação para com o descaso com que é tratada a saúde no Brasil.
Queremos o que é de direito constitucional e obrigação do Estado proporcionar. Isto não está escrito nas estrelas, mas na Constituição do Brasil.


José Carlos Rodrigues Amarante
Presidente da Diretoria Administrativa

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