Alegria do escrevinhador

Escrever o editorial de um veículo de comunicação interna, seja ele em que formato for, é responsabilidade pessoal de quem escreve; ainda que por mera obrigação de dar voz à entidade que representa.
Nesse sentido, o editorialista deveria ater-se apenas na defesa dos interesses da instituição, evitando ao máximo transcrever opiniões pessoais ou fatos que estejam relacionados mais à sua pessoa do que à instituição. Deveria, mas não é o que comumente acontece e inadvertidamente acaba muitas vezes resvalando em fatos e opiniões relacionados ao seu cotidiano pessoal, ainda que em muitos momentos estes se confundam ou se entrelaçam com os da instituição.
Escrever o editorial deste jornal para mim é uma grande satisfação, apesar do esforço para fazê-lo, por razões óbvias. Tento no mínimo não decepcionar o ilustre leitor. Condição, aliás, típica dos escrevinhadores, na acepção que o dicionarista lhe dá. Não espero nenhum reconhecimento por isso, a não ser conseguir transmitir, com máxima fidelidade, a missão e visão da Fundação Padre Albino. Apesar disso, sei que alguns ilustres leitores – algumas personalidades inclusive – me prestigiam com a leitura do editorial. Sou-lhes grato por isso.
Proporcionou-me, entretanto, especial alegria saber que Dom Antonio Celso de Queiróz lê os editoriais deste jornal com habitualidade. Isso, no meu caso, é um ápice que extrapola qualquer pretensão menos modesta e soaria falso negar. Bispo Emérito da Diocese de Catanduva, tendo sido também o seu primeiro Bispo, Dom Celso, como gentilmente nos permite chamá-lo, deixou marcas apostólicas e pessoais profundas na sua passagem por aqui. E não só entre os fiéis católicos diocesanos, mas na sociedade como um todo.
Pastor dedicado e amoroso, fiel à Igreja da qual é profundo conhecedor de seu magistério, sempre acolheu com paternal carinho todas as pessoas que dele se aproximaram. Durante seu bispado em Catanduva, por mais de nove anos, sempre calou fundo em nós suas profundas e tocantes homilias e pregações. Tive o prazer de revê-lo, quando de sua recente visita à Diocese, numa celebração eucarística presidida por ele mesmo, na Catedral. Visivelmente alquebrado pelo peso dos anos e limitações físicas, contudo não perdeu o olhar amoroso e vivaz de quem não se deixa abater na fé e na esperança, apontando, ainda, o caminho às suas ovelhas. Mostrou-nos que ainda detém o vigor espiritual ao dizer que o que lhe pesa hoje nos ombros não é a cruz de Cristo, mas a falta das coisas que a vida aos poucos vai lhe tirando.
Para mim, em particular, além da grande satisfação em revê-lo e trocar com ele duas palavras, seu testemunho de que lê os editoriais que escrevo em nome da Fundação Padre Albino foi também de particular alegria. Em que pese seu interesse na saúde geral da Fundação que, em última instância, significa a garantia de assistência à saúde aos mais necessitados, todavia, sua generosidade mais uma vez marcou. Ser lido por um intelectual da Igreja, ainda que por razões meramente altruísticas, não é pouco para ninguém, quem dirá para mim!
Obrigado, Dom Celso! Esse gesto singelo renovou minha coragem e estimulou-me a permanecer firme à frente da missão a mim confiada.

“O verdadeiro escritor não tem nada a dizer. O que conta é o modo como ele diz”. (Alain Robbe-Grillet)

José Carlos Rodrigues Amarante
Presidente da Diretoria Administrativa
da Fundação Padre Albino

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