As FIPA e a Filantropia

“Desejo, com toda sinceridade, morrer inteiramente pobre, sem dinheiro, sem bens, sem dívidas e sem pecado”. (Padre Albino)
As Faculdades Integradas Padre Albino (FIPA) estão para a Fundação Padre Albino, como o oxigênio para os seres humanos. Os Hospitais Escola Padre Albino e Emílio Carlos dificilmente estariam ativos hoje, se não fosse a existência das FIPA; pelo menos não na iniciativa privada como é hoje a FPA. Talvez estivessem funcionando como instituições públicas, com todos os problemas inerentes ao setor, ou simplesmente estariam fechados. Chego à essa conclusão pela simples constatação da situação financeira da maioria das 2.100 Santas Casas e Hospitais Filantrópicos do Brasil; que pedem socorro ao Governo Federal para continuarem sua missão. Felizmente não é o caso dos Hospitais da Fundação Padre Albino, mas isto tem uma explicação: há muitos anos, as então faculdades isoladas, hoje integradas, da FPA financiam os recorrentes déficits do Departamento de Saúde. Desde que cheguei à Fundação, no ano de 2.000, mantenho-me inconformado com isso, pois sempre entendi como continuo a entender que a responsabilidade pelo financiamento da saúde pública é do Estado (Federação) e de seus entes federados (Estados e Municípios), exatamente como consta da Constituição Federal. A Fundação Padre Albino, apesar de filantrópica (filantropia = 1-profundo amor à humanidade, 2-desprendimento, generosidade para com outrem; caridade – Houaiss) é uma instituição privada que presta serviço público por contratualização, isto é, cumpre o dever constitucional que o Estado não tem condições de fazer, mas, para isso, deve ser condignamente reembolsada. Não tem o ônus de suportar financeiramente a prestação do serviço de saúde à população, que o Estado realiza por seu intermédio, sem, contudo, repor todo o dinheiro que a Fundação gasta com isso. Há muito tempo, portanto, a Fundação Padre Albino, tanto quanto as demais Santas Casas e Hospitais Filantrópicos, vêm colocando dinheiro do próprio bolso para cumprir um dever constitucional do Estado. A diferença entre a Fundação Padre Albino e as demais Santas Casas é que ela nada deve, por causa do constante financiamento prestado pelas Fipa. Mas isto, na minha opinião não pode continuar. Muito embora se buscarmos na história da Fundação Padre Albino a razão de sua existência, veremos que o espírito do seu fundador era exatamente esse: acolher a todos os necessitados, independentemente de saber a causa ou o causador dessa necessidade. Padre Albino, que já havia fundado e mantinha a Associação Beneficente de Catanduva (Santa Casa) praticamente sem a ajuda do Estado, apenas com doações da população, era, além de tudo, um visionário. Já nos fins da década de 50, início dos anos 60, Padre Albino sentia grande dificuldade em atender seus doentes, por falta de médicos. Jamais faltavam leitos e alimento – tanto para os internos quanto para aqueles que diariamente vinham à porta da cozinha do Hospital para se alimentari, tanto que, se preciso fosse, cedia sua própria cama, mas o doente não ficava sem leito, segundo quem com ele conviveu; mas não tinha médicos suficientes para atender a todos. Foi dessa necessidade premente que surgiu a ideia de criar uma faculdade de medicina em Catanduva, pela qual Padre Albino estava disposto até mesmo a doar ao Estado “seu próprio hospital”, se necessário fosse, segundo o historiador Celso Vicente Quágliaii . Com a instalação do curso, em l970, vieram ao longo dos anos os demais cursos que hoje compõem as Faculdades Integradas Padre Albino. A humanidade cresceu, evoluiu e Catanduva junto com a humanidade. Lamentavelmente continuamos tendo falta de médicos; só que já não temos mais entre nós filantropos ao estilo de Padre Albino, para garantir leitos, remédios e alimentos para todos os que necessitam de assistência. Felizmente a visão e espírito de Padre Albino deixou-nos um legado, para que não faltasse essa assistência em momentos difíceis como o que estamos passando nesses anos. As Fipa tem garantido a continuidade dos hospitais, através do aporte de recursos financeiros e mesmo assim não lhe tem faltado verba para investimentos e melhorias. Certamente são milagres que devem ser creditados a Padre Albino. Contudo, não é justo, apesar da nobreza do propósito, não é justo que as Fipa continuem a pagar pela saúde da população, enquanto o governo gasta verdadeiras fortunas em construção de estádios de futebol; desonerando produtos da linha branca e produção de automóveis. Não que não possa fazê-lo, mas, antes, é preciso que cumpra seu dever constitucional de prover de saúde o povo e pare de ficar alardeando que a saúde no Brasil vai bem; porque nós da Fundação Padre Albino, sabemos perfeitamente quanto custa fazer saúde no Brasil, sem a imprescindível parcela governamental.

Dr. José Carlos Rodrigues Amarante
Presidente da D.A.

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i Monsenhor Albino Alves da Cunha e Silva – Apóstolo da Caridade – Mons. Vitor Rodrigues de Assis – 1987 – 2ª e. – p. 96
ii Quaglia, Vicente Celso – Catanduva de A a Z – Ed. Riopretense – 2003 – p. 44

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