E as férias acabaram...

Dizem que no Brasil o ano só começa depois do carnaval. Não serei eu a desdizer um dito tão popular quanto verdadeiro em muitos aspectos. Mas como toda unanimidade é burra, segundo o poeta, há exceções e que exceções! Enquanto grande parte da população busca pelo merecido gozo das férias de final de ano, outra parte da população, obrigatoriamente, tem de ficar no batente; do contrário haveria caos e o prejuízo seria de todos.
Alguns setores e atividades, por não trazerem nenhum risco à população em geral ou segmento específico, podem se dar ao luxo de serem paralisadas por algum tempo, sem maiores problemas. Outras podem diminuir o ritmo, mas não paralisar. Outras ainda não podem nem diminuir o ritmo e muito menos paralisar, nem por uma fração de segundo. Neste seguimento, sem negligenciar outras tantas atividades imprescindíveis, estão as santas casas e hospitais filantrópicos.
Não quero com isso dizer que alguns são privilegiados e outros prejudicados; é que é assim mesmo que as sociedades modernas funcionam e não me ocorre que poderia ser de outra forma. Mesmo aqueles que são adeptos do ócio criativo hão de concordar que sempre haverá alguém executando fisicamente um trabalho imprescindível para todos os outros. Não se trata de filosofar, mas da realidade nua e crua.
Pois bem! No escopo dos serviços prestados pelos hospitais está contemplado o plantão vinte e quatro horas por dia, em todos os dias do ano, ininterruptamente. Isso significa que os hospitais têm que, obrigatoriamente, manter uma estrutura física e humana capaz de manter a vida e o bem-estar de todas as pessoas que precisarem, a qualquer momento do dia ou da noite. Pode parecer coisa simples, mas quem milita na área sabe muito bem que não é.
Inevitável deduzir que, enquanto muitos se divertem, passeiam ou descansam, muitos médicos, enfermeiros, atendentes e serviços de apoio hospitalar estarão de plantão para que, caso alguém precise, tudo seja feito da forma mais eficiente, rápida e segura para o paciente e tranquilidade para seus familiares.
Até aqui tudo bem e com certeza não estou dizendo nada que todos já não saibam ou deveriam saber. Chamo a atenção daquelas pessoas - e não são poucas - que não reconhecem todo o trabalho e preocupação das instituições hospitalares para o conforto e tranquilidade das pessoas que venham a precisar de seus serviços. Não é razoável dizer que têm obrigação de fazer o que fazem porque, afinal, é para isso mesmo que existem. É preciso que essas pessoas enxerguem que, no Brasil, trabalhar com saúde pública é muito complicado, começando pela falta de financiamento do governo federal. Daí passa pela falta de médicos especialistas ou generalistas, que não se sujeitam a trabalhar pelo preço vil da remuneração do SUS; pela falta de mão de obra qualificada nos setores de enfermagem (técnicos e auxiliares); pela elevada judicialização no seguimento; pela falta de apoio e reconhecimento da população local, quando chamada a colaborar com projetos ou custeio que beneficiarão a própria população, e por aí vai.
Quando tudo vai bem ninguém se lembra ou não quer ser lembrado das agruras e dificuldades por que passam as instituições hospitalares. Ao contrário, quando necessitam, mesmo que o caso não seja de urgência, querem ser atendidos prontamente e ainda escolher por quem querem ser atendidos. E se assim não for, aprontam o maior escarcéu na porta do hospital, mas antes chamam a imprensa ou a polícia para que todos fiquem sabendo do mau atendimento, que na verdade não ocorreu, fruto apenas da ansiedade e falta de conhecimento dos protocolos médicos.
O que nos incomoda não é o fato de estarmos sempre de prontidão para o que der e vier e quando vier. O que nos entristece é o fato de muitos não reconhecerem o esforço às vezes sobre-humano para manter as portas dos hospitais abertas e ainda ser achincalhados injustamente quando algo não é feito no momento em que se quer e da forma como se quer, nem sempre possível ou devido. Temos a maior satisfação de ficar na retaguarda, enquanto muitos curtem as merecidas férias. Mas quando estiver tudo bem, lembre-se de que você pode fazer muito pelo próximo, ajudando os hospitais da sua cidade ou região.
Nas próximas férias curta bastante com sua família e amigos; comemore (sem exageros); descanse e relaxe. Fique tranquilo; saiba que se precisar - e esperamos que não precise - estaremos ao seu dispor com todo o aparato e atenção possíveis. Saiba que os hospitais não tiram férias e estão o tempo todo pensando em como suprir suas próprias necessidades e melhorar a qualidade do atendimento às pessoas.

José Carlos Rodrigues Amarante
Presidente da Diretoria Administrativa
da Fundação Padre Albino

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