Exercício de cidadania

“Desejo, com toda sinceridade, morrer inteiramente pobre, sem dinheiro, sem bens, sem dívidas e sem pecado”. (Padre Albino)
Tenho insistido, neste espaço, sobre as dificuldades financeiras das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos no Brasil. Sei que é tedioso ler todos os meses sobre o mesmo assunto. Infelizmente, como a situação não melhora, vejo-me na obrigação de voltar sempre ao assunto para que não caia no esquecimento e não seja depois acusado de não ter me esforçado o suficiente para conscientizar a todos sobre o perigo que corre as instituições de saúde caso nada seja feito pelas autoridades competentes.
A situação é tão grave que, por iniciativa da Santa Casa de Votuporanga e apoio da Federação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos do Estado de São Paulo – FEHOSP, foi lançada uma campanha para sensibilizar os governos federal e estadual sobre a necessidade de reajuste da tabela SUS imediatamente.
Da reunião em que participaram mais de cinquenta instituições paulistas surgiram, por consenso, algumas ações importantes nesse sentido e também para alertar toda a população sobre a real situação enfrentada pelas Santas Casas e Hospitais Filantrópicos.
Uma delas foi o dia da conscientização, em que pelo menos oitenta instituições participaram com todos os funcionários e dirigentes vestindo camisas pretas com a logomarca da campanha “TABELA SUS, REAJUSTE JÁ”. Fiquei muito orgulhoso com o nível e o entusiasmo com que os funcionários da FPA participaram do ato. Desta forma, não tenho dúvidas que conseguiremos. Desde já, o meu muito obrigado. Outra ação foram as cartas dirigidas à Presidenta Dilma e ao Governador Alckmin ilustrando o ocorrido e solicitando providências imediatas.
Novas ações virão após a avaliação, que ocorrerá no próximo dia 26 em Votuporanga.
Geralmente os usuários do sistema SUS – e também dos planos de saúde – só se dispõem a reclamar à imprensa e aos órgãos fiscalizadores quando o próprio ou alguém de sua família experimenta algum dissabor às portas dos hospitais ou laboratórios.
Como vivemos num país democrático, graças a Deus, acho muito justo que reclamem (e reclamem a todo pulmão) quando isto acontece. Porém, como em toda democracia há direitos e deveres, penso também que é dever de todo cidadão, usuário ou não do SUS ou de planos de saúde, reivindicar melhorias constantes às necessidades básicas da população, em especial às de saúde. Afinal, a saúde é um direto de todos e dever do Estado, conforme determina a nossa Constituição Federal (Art. 196).
Alguns pensam que a saúde é um saco sem fundo e que nunca haverá dinheiro suficiente para atender a todos. Depende. Se cada governo fizesse a sua parte, certamente os recursos seriam suficientes para atender a todos - e com qualidade.
O Brasil é um dos países que menos investe em saúde pública no mundo. Segundo levantamento da CNBB, com base em 2010, enquanto o Brasil gastou U$ 202,44 per capita em saúde pública, a Argentina gastou U$ 366,00, o Uruguai U$ 304,00, os países desenvolvidos U$ 1.400,00 e os Estados Unidos U$ 6.000,00. E olha que a Argentina e o Uruguai têm um PIB muito menor que o do Brasil.
Trata-se, então, de prioridade e não de ineficiência do setor. Afinal, fazer saúde com os parcos recursos que as instituições parceiras recebem, e mesmo assim continuam fazendo, só mesmo para quem tem muita competência.
Paralelamente a essa campanha das Santas Casas e Hospitais filantrópicos, a Associação Médica Brasileira (AMB) junto com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e outras importantes instituições lançaram a campanha POR UMA SAÚDE 10, que visa angariar assinaturas para um projeto de lei de iniciativa popular que garanta pelo menos 10% do orçamento público para a saúde. Para isso há necessidade de 1,5 milhão de assinaturas. Essas assinaturas devem, obrigatoriamente, ser acompanhadas do número do título de eleitor do participante.
Muitos têm assinado, mas se recusam a fornecer o número do título de eleitor, temendo ser algum ato político/eleitoral. Não há o que recear; trata-se de um movimento legítimo e um ato de cidadania em favor do próprio povo. A assinatura de todos os eleitores é muito importante. Afinal, a educação, com grande justiça, conseguiu seus 10% do PIB. A saúde, com muito mais razão, precisa desses 10%.
Resta-nos, por fim, desejar e torcer para que o novo prefeito de Catanduva, que assumirá em janeiro, assim como os demais prefeitos das outras dezoito cidades circunvizinhas olhem com muito carinho para a Fundação Padre Albino e sejam realmente parceiros nesse mister, que é proporcionar saúde a todos, especialmente aos mais necessitados.
Agradeço ao prefeito eleito de Catanduva, deputado Geraldo Vinholli, pela iniciativa de procurar a FPA, imediatamente após a eleição, para se inteirar da situação desta quase centenária instituição de saúde que tem, sim, muita competência para fazer o que sempre fez e, como parceiros institucionais, poderemos fazer ainda muito mais.


Dr. José Carlos Rodrigues Amarante
Presidente da Diretoria Administrativa

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