A quem interessa o HCC?

O sonho

Ano que vem, Catanduva completará 100 anos de emancipação político-administrativa e também se comemora o centenário da chegada de Padre Albino a Catanduva. Um pouco mais, em 2026, serão os 100 anos do início da construção da Santa Casa de Misericórdia, hoje Hospital Padre Albino. Ou seja, há mais de 90 anos o Hospital Padre Albino vem prestando serviços de saúde à população de Catanduva e região. Contudo, mesmo sendo um hospital de alta complexidade, até hoje não possui o Serviço de Radioterapia, destinado a tratar pessoas com câncer, uma das doenças mais prevalentes e que mais mata no mundo.

Catanduva já ultrapassou há muito a casa dos 100.000 habitantes e, assim como em outras regiões, a incidência do câncer é alta, sendo que, na maioria das vezes, nossos pacientes precisam se deslocar a outras localidades para o tratamento completo. Barretos, prioritariamente, São José do Rio Preto, Jaú e São Paulo são os destinos mais comuns desses pacientes que quando não alcançam a cura, para cá retornam em tratamentos paliativos.

Vendo o sofrimento desses pacientes e seus familiares que, sob efeito de fortíssimo tratamento precisam sair ainda de madrugada de suas casas, enfrentar um longo tempo de viagem – em sua maioria em ambulâncias ou ônibus fornecidos pelas Prefeituras – receber novo tratamento e retornar já no final do dia ou início da noite, os dirigentes da Fundação Padre Albino, consternados, desejavam viabilizar o tratamento aqui mesmo em Catanduva. Apesar dos hospitais da Fundação já oferecerem todos os demais tratamentos oncológicos (diagnóstico, tratamento ambulatorial, cirurgia, hormonioterapia e quimioterapia) ainda não tinha a tão necessária radioterapia. O grande problema era, e continua sendo, o valor do investimento.

O projeto

No ano de 2010, durante o mandato do então presidente Dr. Geraldo Paiva, o sonho começa a se tornar realidade. Num encontro com o governador Geraldo Alckmin e seu então secretário da saúde, Dr. Giovanni Guido Cerri, em Taquaritinga, intermediado pelo deputado Geraldo Vinholi, chegaram a um acordo para viabilizar a implantação da Radioterapia na Fundação Padre Albino. Com previsão de investimentos, subestimado diga-se, de R$ 6.000.000,00 (seis milhões de reais), o deputado se comprometeu a contribuir com R$ 1.500.000,00 (um milhão e quinhentos mil reais), através de emenda parlamentar, e o secretário da saúde com R$ 2.000.000,00 (dois milhões de reais) para a construção do prédio da Radioterapia. Apesar da conta não fechar, o projeto foi avante e, através da deputada Beth Sahão, o Ministério da Saúde se comprometeu com R$ 1.500.000,00 (um milhão e quinhentos mil reais), valor naquele momento mais que suficiente para a compra do acelerador linear (equipamento de radioterapia).

Em 2013 demos início à construção do prédio com a conquista de mais R$ 1.700.000.00 (um milhão e setecentos mil reais), aproximadamente, junto ao governo do Estado. Porém, ao revermos o projeto, verificamos que para a implantação completa do serviço demandaria algo em torno de R$ 14.000.000,00 (quatorze milhões de reais), aproximadamente, porque, além dos móveis e equipamentos não previstos na primeira fase, precisaríamos ainda da construção do entorno do prédio (paisagismo), dos aparelhos de tomografia e braquiterapia, equipamentos fundamentais para o bom desempenho do tratamento radioterápico. Além disso, em razão da demora na liberação

das verbas, mormente as destinadas à compra do acelerador linear, cotado em dólares, as avaliações iniciais ficaram defasadas, sendo necessários novos aportes. Conseguimos, junto ao Ministério da Saúde, a liberação de mais R$ 600.000,00 (seiscentos mil reais), aproximadamente, e nova promessa do governo do Estado de R$ 2.000.000,00 (dois milhões de reais), aproximadamente. Com a demora na liberação da verba pelo Ministério da Saúde e a explosão cambial, já não era mais possível a aquisição do equipamento sem contrapartida com recursos próprios.

A campanha

Com as obras já bastante adiantadas e para não atrasar ainda mais a entrega do Serviço de Radioterapia à população, resolvemos lançar campanha arrecadatória junto à própria população destinatária dos serviços, o que foi feito no dia 25 de fevereiro de 2016. Até o fechamento do mês de maio deste ano conseguimos arrecadar mais de dois milhões e meio de reais, dos quais boa parte já foi gasto na própria obra, tal como aquisição do aparelho de ar condicionado e acabamento, e outra parte na complementação da verba para a aquisição do acelerador linear. Tudo está devidamente registrado no site www.abracehcc.com.br O detalhe é que já vínhamos tentando arrecadar verbas para a implantação da Radioterapia, sem muito sucesso. Então percebemos que com a implantação da Radioterapia completaríamos todo o ciclo de tratamento oncológico no mesmo local, o que nos permitiria denominar de hospital do câncer. Assim surgiu o HCC – Hospital de Câncer de Catanduva, que funcionará nas dependências do Hospital Emílio Carlos, com a vantagem deste ser um hospital geral.

Faltando ainda alguns milhões de reais para a entrega total dos serviços, a campanha continuará indefinidamente. Porém, nossa expectativa é de que consigamos dar início aos serviços no primeiro semestre do ano que vem, se não houver nenhum imprevisto. O acelerador já está comprado e pago, devendo ser embarcado no final deste mês nos EUA. Para isso também contamos com a liberação da verba prometida pelo atual secretário da saúde, Dr. Davi Uip, em duas visitas ao seu gabinete, uma delas viabilizada pelo então vereador Julinho Ramos e outra pelo deputado Marco Vinholi.

Os políticos

Muito próximos de alcançar nossos objetivos iniciais para início de funcionamento do HCC, começam então a surgir novas demandas para a implantação e funcionamento da Radioterapia. Além dos dois milhões de reais prometidos pelo secretário estadual de saúde, precisamos que o Ministério da Saúde habilite o serviço para que, assim, possa atender a pacientes do SUS desde o primeiro momento de funcionamento. Em visita ao ministro da saúde, Dr. Ricardo Barros, viabilizada pelo deputado federal Dr. Sinval Malheiros, descobrimos que a habilitação – não se trata de credenciamento porque já estamos inseridos na Unacon (Unidade de Alta Complexidade em Oncologia) – mesmo sendo um ato essencialmente burocrático, depende em boa parte de pressão política (lobby legitimamente exercido), como quase tudo que envolve serviços públicos.

Concluímos que a melhor forma de trazer todos os políticos da nossa região para essa demanda, e de forma célere, seria convidá-los para um café da manhã nas próprias dependências do Hospital Emílio Carlos/HCC. E assim fizemos. Convidamos, além dos deputados federais e estaduais que representam a nossa região, todos os prefeitos dos municípios que são atendidos pelos hospitais da Fundação. Compareceram pessoalmente ao evento os deputados Dr. Sinval Malheiros e Marco Vinholi e dos 19

municípios atendidos pelos hospitais, apenas quatro prefeitos: Afonso Macchione (Catanduva); Rubens Francisco (Elisiário); Haroldo José Pereira Ciocca (Irapuã); Wilson Farid Casseb e o vice, Geraldo Bará (Paraíso); Maria Felicidade Peres Campos Arroyo (Tabapuã) e Luís Antonio Fiorani (Vista Alegre do Alto). Também compareceram pessoalmente os vereadores Ari Enfermeiro, André Beck, Wilson Paraná, Cidimar Porto e Ivan Bernardi e os secretários de saúde de Catanduva, Elisiário, Irapuã, Paraíso e Vista Alegre do Alto e os voluntários com contratos de prestação de serviços gratuitos firmados com o HCC (Ateliê Amor ao Próximo e Voluntários do Bem).

A pergunta que não quer calar

Primeiramente queremos reiterar os nossos mais sinceros agradecimentos a todos que compareceram ao evento. Acreditamos que vieram não porque era promovido pela Fundação Padre Albino, embora esta mereça, sim, respeito por tudo que já fez, faz e que continuará fazendo pelo povo, mas pela causa, cuja responsabilidade mais uma vez assumiu perante toda a sociedade. A eles os nossos mais profundos agradecimentos, em nome da Fundação e dos futuros beneficiários do Serviço de Radioterapia.

Àqueles que, embora convidados e com participações confirmadas por suas assessorias, não compareceram e não deram importância alguma ao fato, gostaríamos de perguntar: recearam assumir algum compromisso ou simplesmente não se interessam pelo bem estar de seus munícipes/eleitores?

Quem é a Fundação?

Quando em campanhas políticas, recebemos muitos candidatos em nossas dependências: os de casa e os forasteiros. São todos sempre muito bem-vindos, porém fazemos questão de frisar que a Fundação não pode apoiá-los diretamente, até mesmo pela sua natureza jurídica, que proíbe qualquer discriminação. Apesar disso, ela sempre vai precisar do apoio político dos eleitos porque, apesar de ser instituição privada, presta serviços públicos deficitariamente remunerados, de forma que todos os anos são enormes os déficits financeiros em seus dois hospitais e no Recando Monsenhor Albino, que são cobertos com recursos próprios advindos de seus departamentos de educação e plano de saúde. Só no ano de 2016 foram mais de R$ 12.000.00,00 (doze milhões de reais). De 2011 a 2016 foram mais de R$ 44.000.000,00 (quarenta e quatro milhões de reais). Ou seja, a Fundação faz saúde pública e assistência social com recursos privados. Essa responsabilidade é do Estado (União, Estados federados e Municípios) e não da Fundação que, contudo, continua a fazê-lo. Isto pode ser conferido nos balanços social e patrimonial já publicados.

Preocupa-nos, inclusive, que políticos locais anunciem esforço para trazer para Catanduva universidades federais ou estaduais, como se isso fosse imprescindível para Catanduva. Esquecem-se de que já temos aqui na Fundação Padre Albino faculdades de ponta, com excelentes avaliações pelo MEC e alguns cursos estão entre os melhores do Brasil, cujos resultados financeiros ajudam a cobrir os déficits dos hospitais. Aliás, as Faculdades Integradas Padre Albino estão muito próximas de se tornarem Centro Universitário, o que permitirá maior autonomia na abertura e fechamento de cursos e beneficiará mais estudantes tanto de Catanduva quanto da região. É no mínimo duvidoso que universidades públicas possam agregar mais benefícios dos que os proporcionados pelas faculdades mantidas pela Fundação. Além disso, essas universidades não ajudariam a cobrir os déficits dos hospitais, assim como é feito há

anos pelas faculdades da Fundação Padre Albino. Por que não valorizar e apoiar o que temos e que, além de funcionar muito bem, ainda ajuda no custeio da saúde regional?

A Fundação não pede para si

Desde o primeiro momento de existência da Fundação Padre Albino, ainda como Santa Casa de Misericórdia, ela nunca pediu para si própria. Sempre pediu a quem tem mais ou a quem detém o poder, para ajudar a quem precisa. Aprendemos isso com Padre Albino e procuramos, com todas as dificuldades, manter sua tradição filantrópica. De forma que nos entristece quando conclamamos os políticos da nossa região – e também de outras regiões que aqui vêm pedir votos durantes as campanhas eleitorais – a ombrear-se conosco numa causa que afeta milhares de pessoas de forma crescente, e eles simplesmente ignoram nosso apelo. Esquecem-se de que foram eleitos pelo povo e pelo bem-estar do povo é que deviam se empenhar. O que acharão disso os seus eleitores?

A Fundação se colocou de peito aberto em mais esse projeto, que beneficiará milhares de pessoas com câncer; jamais para se beneficiar com isso. Ao contrário. Depois da Radioterapia instalada e funcionando, o prejuízo, que já é grande, tende a ser ainda maior. Por qual razão, senão pelo amor ao próximo, a Fundação faz isso?

O que pretendíamos naquela manhã não era pedir recursos financeiros aos deputados e prefeitos como, talvez, os ausentes poderão ter deduzido. Em nenhum momento da campanha fizemos isso - e olha que já arrecadamos mais de dois milhões e meio de reais vindos apenas dos cônscios e sofridos cidadãos. Nenhum recurso público até então foi agregado à campanha. Queríamos e ainda queremos que os parlamentares e prefeitos convidados, além de conhecerem de perto o estágio da obra, subscrevessem conosco dois ofícios: um ao ministro da saúde e outro ao secretário de saúde do Estado de São Paulo. O primeiro solicita a imediata habilitação do Serviço de Radioterapia, visando atender pacientes SUS desde o primeiro momento de funcionamento do acelerador, e o segundo pedindo a imediata liberação da verba prometida pelo Dr. Davi Uip, destinada à mobília, equipamentos e paisagismo da Radioterapia. Não havia motivos para receio. E ainda que houvesse, seria justo, porque os beneficiários são os próprios cidadãos que merecem todo o respeito e atenção das autoridades constituídas. De resto, a Fundação faz a sua parte e cumpre seu compromisso para com o povo.

Afinal, a quem interessa o HCC?

Interessa a todos e a cada um de nós, que já tivemos, temos ou ainda teremos familiares ou nós mesmos acometidos por câncer.

Interessa àqueles que, sem recursos suficientes, têm que se levantar ainda de madrugada, esperar pela ambulância na porta de sua casa, fazer uma longa viagem até o destino de tratamento oncológico e, sob o efeito devastador do tratamento, esperar até que o último dos companheiros de viagem também o faça para, só no final do dia ou já início da noite ou noite avançada, retornarem a seus lares. Muitas vezes em jejum.

Interessa ou deveria interessar aos próprios prefeitos. Primeiro porque estariam ajudando a proporcionar um tratamento menos sofrido aos seus concidadãos e, segundo, porque ainda estariam economizando para os cofres de seus municípios, à medida que as viagens se tornarão mais curtas, disponibilizarão menos recursos humanos à disposição dos pacientes e ainda diminuindo muito os riscos de acidentes, muito comuns nessas longas viagens até Barretos, Jaú ou São José do Rio Preto. Ou seja, todos ganharão com a implantação do Hospital de Câncer de Catanduva. Mas parece

que muitos ou não enxergam ou não querem assumir essa responsabilidade. A Fundação Padre Albino não titubeou, assumiu!

Por mais que gostemos do Hospital de Câncer de Barretos, um hospital de referência nacional tanto em qualidade quanto em quantidade em atendimento oncológico no Brasil, a partir da implantação definitiva da Rede Hebe Camargo, todos os pacientes oncológicos dos 19 municípios serão necessariamente atendidos no HCC. Fora disso ficará por conta e risco do usuário e/ou do seu município. O HCC será a única referência para esses municípios. O grande problema é que Barretos já não tem mais como atender a toda demanda, que cresce ano após ano. Por isso tanto o Ministério da Saúde quanto a Secretaria de Estado da Saúde estão priorizando a implantação de novos centros de tratamento oncológico, dos quais a Fundação Padre Albino se colocou à disposição para abarcá-lo, com a vantagem de estar dentro de um hospital geral. Ou seja, os pacientes do HCC portadores de outras patologias, além do câncer, poderão se tratar no mesmo local sem ter que se deslocar de um centro para outro para tratar das múltiplas doenças.

Fique claro, porém, que não temos aqui a intenção de constranger os prefeitos e parlamentares que não atenderam ao nosso convite. Antes respeitamos suas decisões. Queremos apenas alertá-los para a importância de participarem conosco nesse projeto de vida e esperança para nossos irmãos cancerosos e, quem sabe, para nós mesmos. Por sermos voluntários, nós, dirigentes da Fundação Padre Albino, não visamos nenhum ganho político ou financeiro com esse ou qualquer outro projeto da entidade. Nos espelhamos no exemplo de nosso patrono que tudo fez sem nada querer em troca. Não há o que temer quanto a isso.

O Sistema Único de Saúde é o melhor programa de saúde pública que o Brasil já conheceu. Se cada um dos atores nele inseridos, ou seja, a União, os Estados e os Municípios fizer a sua parte de forma abnegada, competente, transparente e honesta, quem ganha é o cidadão e a Pátria. E a Fundação Padre Albino, como prestadora de serviços na saúde, educação e assistência social para Catanduva e região, mesmo mal remunerada por isso, cumprirá, como cumprido tem o seu mister, com muita disposição e amor.

José Carlos Rodrigues Amarante
Presidente da Diretoria Administrativa da
Fundação Padre Albino (Catanduva/SP)

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