Ensino superior em Catanduva – universidade pública?

Qual família, que tendo um adolescente em seu meio, não sonha com uma faculdade para ele? De preferência pública, claro! Não importa o nível sócio econômico da família. Se a universidade for próxima da residência, ótimo; se for na sua cidade, melhor ainda. Evitam-semuitas despesas.Afinal,o futuro promissor do jovem depende de cursar uma boa faculdade.
No Brasil, isso é um sonho que para muitas famílias, sobretudo as mais humildes, tende a permanecer apenas no plano da utopia. Em muitos cursos as vagas são extremamente concorridas, entretanto,em muitos outros elas dificilmente são preenchidas. Para chegar lá são inúmeros os obstáculos, a começar pela má formação noEnsino Fundamental e Médio, passando pela maratona de vestibulares, altamente competitivos, pela difícil decisão de fazer o curso certo etc. O problema é que o poder público não consegue proporcionar ensino superior gratuito para todos e as instituições privadas acabam por preencher essa lacuna com muito maior desenvoltura.Não resta dúvida de que o ideal seria ensino público universal e gratuito para todos.Hojeapenas 15% dos nossos jovens entre 18 e 24 anos estão matriculados em cursos superiores.Destes,cerca de 72%,ou 4,7 milhões de alunos,estão na rede privada e 28%,ou 1,8 milhão,na rede pública.
Catanduva tem ensino superior desde 1966, com a criação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Catanduva (Fafica). Trata-se de autarquia municipal não gratuita, ainda que conceda significativo índice de gratuidade. Após, vieram pelas mãos de Padre Albino as faculdades de Medicina (1970); Administração de Empresas (1972); Escola Superior de Educação Física (1973); Enfermagem (2000); Direito (2002); Biomedicina (2010); Pedagogia (2010) e Bacharelado em Educação Física (2010). Em 2007 as faculdades isoladas se transformaram nas Faculdades Integradas Padre Albino (FIPA), cuja mantenedora continuousendo a Fundação Padre Albino.Alguns cursos da FIPA estão entre os melhores do Brasil, segundo avaliação do MEC, como é o caso da Medicina, Direito e Pedagogia, sendo que os demais são também muito bem avaliados. Congregam, hoje,cerca de 2.3 mil alunos (graduação e pós-graduação).
Há significativa oferta de vagas em Catanduva, nem todas elas preenchidas. Os motivos são muitos: deficiência na formação fundamental, falta de interesse,limitação financeira. É verdade que há demandas para outros cursos que Catanduva não tem,obrigando alunos a se deslocarem para outras cidades. Certo é também que muitos desses alunos escolhem cursar em outras cidades apesar de existirem aqui os mesmos cursos e às vezes com qualidade superior; mas aí já é outra questão.
De uns tempos para cá, tornou-se lugar comum candidatos a cargos eletivos em Catanduva prometerem trazer para cá universidades públicas, federal ou estadual. Por certo que isso engrandeceria a imagem de Catanduva como centro educacional e criaria expectativas de oportunidade para nossos jovens. Mas, abstraindo o tradicional discurso de campanha, penso que deveríamos nos perguntar se de fato e concretamentea vinda de uma universidade pública para cá poderia mesmo agregar valor para Catanduva.
A Folha de São Paulo publicou em 23/07o editorial “Quem paga pelo ensino” e no dia 27/08 o artigo “Universidade só é gratuita para as elites”, de Kim Kataguiri.O editorial discorre sobre o volume de recursos alocados para as universidades públicas, cerca de R$ 26 mil por aluno contra R$ 7 mil para o ensino infantil e médio. Afirma que “tal discrepância acentua o desequilíbrio de oportunidade entre estudantes de famílias ricas e pobres – os primeiros, como se sabe, têm mais chances de alcançar níveis elevados de escolaridade”.Defende ainda que o ensino público superior não seja totalmente gratuito para o aluno que possa pagar. Diz que o aluno poderia coparticipar do financiamento da universidade pública e sugere que pelo menos “15% dos desembolsos das universidades brasileiras poderiam ser cobertos assim”, com base em “estimativas preliminares e a experiência internacional”.
Já Kim Kataguiri, mais incisivo, afirma que “o que os monopolistas da virtude omitem é que a tal universidade só é pública e gratuita para as elites. Os mais pobres participam dessa brincadeira pagando a conta”. Segundo ele “... a chance de alguém que tenha uma renda familiar per capita menor do que R$ 250 entrar numa universidade pública é praticamente nula, apenas 2%”; “por outro lado, os jovens com renda familiar per capita acima de R$ 20 mil têm 40% de chance. Na prática, nossas universidades públicas transferem dinheiro dos mais pobres para os mais ricos”. E continua: “Na USP,06 em cada 10 alunos poderiam pagar mensalidade, caso os critérios do ProUni fossem adotados. Em 2014, metade dos calouros pertencia às famílias ricas do país”. Na prática o que Kim Kataguiri está propondo é que se inverta a lógica posta e as universidades públicas sejam destinadas prioritariamente a quem precisa e não para quem quer. “Os mais pobres devem ter o direito de estudar gratuitamente e, se necessário, também receber auxílio para moradia, transporte e alimentação”.
Há certamente muitosoutros argumentos tanto a favor como contra as universidades públicas no formato atual. É preciso jogar mais luz nesse debate. É preciso estudos de viabilidade e de impacto naquilo que já temos e que funciona muito bem; valorizar o que já temos e ajudar a melhorar ainda mais. Por exemplo, a FIPA, além de já possuir cursos de alta performance e na iminência de abrir outros, por ser superavitária, ajuda a cobrir os altos déficits causados pelo subfinanciamento do SUS nos hospitais Padre Albino e Emílio Carlos. A universidade pública ajudaria também a cobrir esses déficits? Ficaria restrita somente aos jovens de Catanduva e região ou beneficiaria também jovens de outras regiões? Quem seriam seus beneficiários diretos: jovens da classe baixa, média ou alta?
Eis o debate que gostaríamos de propor.

José Carlos Rodrigues Amarante
Presidente da Diretoria Administrativa
da Fundação Padre Albino

Sair