A Ala Marfim do Hospital Emílio Carlos

Como amplamente divulgado na imprensa local, o Hospital Emílio Carlos (HEC) inaugurou nova ala de atendimento hospitalar, denominada “Ala Marfim”. A estrutura física do HEC é antiga, da década de cinquenta do século passado; porém ficou irreconhecível com a nova roupagem que lhe foi dada.

Totalmente remodelada, a ambiência ganhou ares de modernidade e de conforto dignas do tempo em que vivemos. Com equipamentos novos e modernos terá a assistência do mesmo corpo clínico dos hospitais Padre Albino e Emílio Carlos, com a colaboração de corpo de enfermagem exclusivamente selecionado. De fato, trata-se de estrutura que se assemelha à dos melhores hospitais particulares do país.

Catanduva merecia algo do tipo. As acomodações que oferecemos nos dois hospitais são dignas, porém, a Ala Marfim oferece algo mais. Por ora são apenas 24 (vinte e quatro) leitos novos em folha. Em breve poderemos oferecer mais 25 (vinte e cinco) leitos no mesmo padrão. Essa ala, embora incrustada num hospital que atende 100% SUS, será destinada exclusivamente ao atendimento de pacientes particulares e de convênios, entre eles prioritariamente o Padre Albino Saúde (PAS). Faço questão de frisar: não será exclusivamente para atendimento do PAS, mas PRIORITARIAMENTE aos usuários do PAS.

A essa altura muitos já devem estar se perguntando: mas como? Ao invés de abrirem mais leitos SUS, vão privilegiar mais uma vez quem pode mais? Por que não abrem mais leitos aos usuários do SUS, cuja falta é exasperante? Sem dúvida um questionamento totalmente pertinente, porém a resposta vai no sentido oposto. A questão da falta de leitos no Estado de São Paulo, segundo a própria Secretaria de Estado da Saúde, é até certo ponto uma falsa questão.

Não há falta de leitos quando considerados os leitos disponíveis nos hospitais de pequeno porte (até 50 leitos), porque geralmente esses hospitais são de baixa resolutividade, isto é, por causa da falta médicos e insumos indispensáveis ao atendimento acabam por encaminhar os pacientes de média e baixa complexidade – de sua responsabilidade contratual – para os hospitais terciários como os da Fundação Padre Albino. A conta é fácil: sobram leitos nos pequenos hospitais da região e faltam leitos nos hospitais de alta complexidade. Mas por que então não se abrem mais leitos nos hospitais terciários? Bem, essa é uma questão complexa e não tem uma única resposta. Primeiro porque não basta apenas criar um espaço físico e colocar ali um leito hospitalar. Junto com esse leito tem de vir todo um aparato, tal como equipamentos, funcionários, médicos, enfermeiros, medicamentos etc e tudo isso depende apenas de uma coisa: dinheiro, que o governo não tem ou não dá prioridade.

Todo e qualquer novo leito que um hospital crie para o SUS tem que necessariamente ser contratado pelo governo para que possa ser disponibilizado aos usuários e quando isto é solicitado a resposta é sempre a mesma: não tem orçamento. Pois bem: desde a criação do Sistema Único de Saúde junto com a Constituição de 1988, a FPA tem atendido muito além da sua responsabilidade contratual, disponibilizando seus próprios recursos. Ou seja, a FPA gasta com atendimento aos usuários do SUS sempre muito mais do que recebe do SUS e, portanto, se viesse a criar mais leitos sem o respaldo governamental teria que arcar não só com os custos da implantação desses leitos, mas também com todo o custeio que esses leitos gerariam. Ora, a Fundação já vem fazendo isso há anos sem reembolso do poder público e o faz justamente para não prejudicar ainda mais os usuários. Nem mesmo as prefeituras da região ajudam com essas despesas. A Fundação até poderia criar mais leitos SUS, desde que houvesse a “compra” desses leitos pelo SUS. A falta de leitos nos hospitais terciários é um fato inegável, mas a solução não passa por uma decisão da FPA e sim dos governos estadual e federal, gestores do SUS.

Esclarecida a questão da falta de leitos nos hospitais terciários – que reconhecidamente afeta a vida não só dos cidadãos, mas principalmente dos próprios hospitais – vem a segunda questão: como então a FPA consegue criar leitos para usuários de seu plano de saúde e particulares? Essa resposta é simples e remonta ao período em que Padre Albino administrava a FPA.

Desde aquela época, visionário que era, Pe. Albino já percebia que o poder público constituído não daria conta de atender todas as necessidades em saúde da população carente. Vindo de Portugal, país onde as Santas Casas floresceram, tinha impregnado em sua alma o carisma da benemerência: pedir aos ricos para ajudar os pobres. Foi com base na necessidade de financiamento constante que criou, ainda nos idos de 1969, a Faculdade de Medicina de Catanduva, pioneira dos nove cursos superiores existentes hoje no Centro Universitário Padre Albino – UNIFIPA. A ideia original era prover o HPA de mão de obra médica e, sobretudo, financiar seus déficits. Essa ideia foi levada adiante pelos sucessores de Pe. Albino mesmo depois de sua morte, de sorte que nesse sentido sobreveio também o plano de saúde.

Basta um rápido raciocínio para entender o porquê da criação de leitos particulares e de convênios no Hospital Emílio Carlos. O Hospital Padre Albino, localizado na região central de Catanduva, tem uma estrutura travada, isto é, ocupa um quarteirão quadrado inteiro com estrutura antiga e sem conformidade com as normas de edificações atuais e qualquer reforma é altamente custosa e insuficiente, embora as façamos mesmo assim, de acordo com as necessidades. Uma ampliação só seria possível no sentido vertical. Temos um projeto nesse sentido, mas os custos tornam sua execução proibitiva no momento, ao passo que o Hospital Emílio Carlos possui ainda alguns espaços passíveis de utilização e fundamentais para uma alavancagem de financiamento.

Com os superávits gerados por esses novos leitos conseguiremos reduzir o déficit do “Emílio Carlos” e ainda investir em outras melhorias. Esta solução evidentemente não pode ser definitiva, até porque os recursos utilizados para cobrir os déficits com o SUS acabam fazendo falta para outros investimentos e melhorias no próprio SUS, no Recanto Monsenhor Albino e na UNIFIPA.

Só quem conhece bem a Fundação pode atestar a seriedade com que esta administração trata seus negócios que, embora de iniciativa privada, executa com competência serviços que o próprio poder público não dá conta de fazer sozinho.

José Carlos Rodrigues Amarante
Presidente da Diretoria Administrativa
da Fundação Padre Albino

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