O HCC contribuindo com a longevidade

Quando, nos idos de 2010, a administração da Fundação Padre Albino tomou a decisão de implantar um centro de radioterapia em Catanduva tinha como fundamento o sofrimento de centenas de pacientes oncológicos de nossa região que se tratavam em centros especializados distantes, sobretudo na cidade de Barretos. Incomodava-nos, sendo um centro de tratamento em saúde para a região, ver aquele contingente de pessoas (pacientes e acompanhantes) se deslocando desde altas horas da madrugada até altas horas da noite seguinte, passando a maior parte do dia ociosos, vagando dentro e no entorno dos hospitais oncológicos à espera do tratamento ou depois dele, via de regra em condições insalubres para quem não está bem de saúde. E tendo que repetir isso dia após dia.

Foi, seguramente, uma das decisões mais acertadas, após o impacto social das inúmeras obras realizadas por Pe. Albino ainda em vida. Contudo, aquilo que parecia ser apenas uma questão de decisão, revelou-se uma verdadeira epopeia, quase uma via crucis até chegarmos a esse ponto, muito próximo da entrada em funcionamento do acelerador linear e dar início aos tratamentos radioterápicos. Naquele momento não tínhamos noção das dificuldades financeiras e burocráticas que a execução do projeto traria. Superadas quase todas as dificuldades – (ainda restam a liberação do equipamento pela CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear) e a habilitação do serviço pelo Ministério da Saúde – aqui, estamos prontos para encarar mais um desafio: o custeio dos tratamentos.

Em que pese a decisão naquela época ter focado o sofrimento dos pacientes por se tratarem longe de suas casas, nossa felicidade aumenta hoje ao constatarmos que, na verdade, o projeto da radioterapia proporcionará muito mais do que isso. Além de proporcionar aos pacientes maior rapidez no tratamento, mais conforto e comodidade para ele e seus familiares e mais tempo de convívio com os seus, o Serviço de Radioterapia do HCC poderá contribuir - e muito - com a tão propalada longevidade do homem neste novo milênio; em particular da população de Catanduva e região.

No congresso patrocinado pela FEHOSP, do qual participamos recentemente, pudemos ouvir do Prof. Dr. Alexandre Kalache, especialista em longevidade, com vários projetos junto à ONU e entidades nacionais e internacionais, sobre a velocidade do envelhecimento da população brasileira e suas consequências para o sistema de saúde. Segundo ele, a inversão da velhice sobre a juventude, isto é, quando o número de idosos supera o número de jovens, que no Japão levou cerca de 120 anos para acontecer, no Brasil esse fenômeno ocorrerá em menos de uma geração, ou seja, cerca de 19 anos. Isto significa que, além de termos menos gente em idade economicamente ativa, ainda teremos grande parte da população com necessidades crescentes de tratamento em saúde. Essa conta é imensamente preocupante e tende a não fechar. Além disso, as estruturas e recursos financeiros para a saúde, que já são bastante limitadas hoje, tenderão a se agravar muito se nada for feito previamente ao fenômeno.

Sabemos que um dos fatores desencadeadores do câncer, entre muitos outros, é que o ser humano está vivendo bem mais. No Brasil passamos de uma expectativa de vida em torno dos quarenta e poucos anos na primeira metade do século passado para cerca de setenta e poucos anos nos primeiros anos deste século. Um crescimento vertiginoso. Grande parte disso se deve, claro, às melhorias das condições de vida dos brasileiros, com mais saneamento básico, educação, saúde básica, alimentação etc., mas, principalmente, aos avanços da medicina, aliadas às novas tecnologias. E o tratamento oncológico não ficou fora disso.

Há cerca de 50 anos, quando o Hospital de Câncer de Barretos começou a funcionar, praticamente existia só ele para atender a demanda de quase toda a região interiorana do Estado de São Paulo e outras regiões carentes do Brasil. Hoje, graças ao

advento da Rede Hebe Camargo, implantada pelo Estado, essa realidade mudou muito. E o HCC já está contribuindo com esse avanço mesmo antes da entrada em funcionamento da Radioterapia. Veja, no quadro abaixo, alguns números relacionados aos atendimentos oncológicos desde o lançamento da campanha ABRACEHCC, em 2016, até o final de 2018:

Segundo os especialistas, não há dúvida de que a precocidade do início do tratamento proporciona maior chance de cura ou de uma sobrevida mais longeva com qualidade. Nisso, o HCC já está contribuindo mesmo antes da entrada em funcionamento da Radioterapia, o que deverá ocorrer em breve. A partir daí a previsão é de que os tratamentos sejam sempre crescentes, de acordo com as expectativas de aumento da doença em nível mundial. Daí a necessidade de recursos também crescente, inversamente proporcional à expectativa de recursos novos por parte do poder público. Daí também a importância da continuidade, agora como nunca, da participação cada vez mais efetiva da sociedade. Quem duvidava do projeto, pode começar a acreditar.

Gostaríamos que ninguém precisasse desses serviços. Infelizmente, a realidade é bem mais cruel.

José Carlos Rodrigues Amarante
Presidente da Diretoria Administrativa
da Fundação Padre Albino

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