Longevidade

Nos últimos dias, tanto nas redes sociais quanto nos jornais viralizaram postagens de internautas que, utilizando-se de aplicativo que “envelhece” as pessoas a partir de imagens atuais, projetam hipoteticamente como estariam suas fisionomias daqui a alguns anos.

Certamente é uma brincadeira interessante, mas não tive a curiosidade de ver-me envelhecido antecipadamente. Ocorreu-me, contudo, outra curiosidade: será que essas pessoas que se interessaram em ver-se como supostamente estariam daqui a dez ou vinte anos estão preparando-se para, de fato, fazer jus à imagem que curtiram? Será que o Brasil está preparado para dar a devida assistência à população crescente de idosos? Pois é; fica aí uma grande interrogação.

Participei recentemente de congresso realizado pela Federação das Santas Casas do Estado de São Paulo (Fehosp), onde tive a oportunidade de assistir à palestra do ilustre Professor Alexandre Kalache, Presidente do Centro Internacional da Longevidade Brasil e copresidente do ICL Global Alliance, cujo tema era “A Revolução da Longevidade Impacta Toda a Sociedade”, e fiquei impressionado com as estatísticas e previsões que apresentou. Segundo ele, em apenas cem anos, ou seja, de 1950 a 2050 a população mundial terá aumentado 3,7 vezes, enquanto a população com mais de 60 anos aumentará 10 vezes e a com mais de 80 anos, 27 vezes. Ou seja, a chance de chegarmos à velhice é real. E não vai demorar tanto tempo assim; basta ter 30 anos em 2020 para estar nos 60 anos em 2050.

Segundo ainda o professor, de cada 1.000 brasileiros com 65 anos em 2018 pelo menos 632 chegarão aos 80 anos. Isto é realmente auspicioso, mas terá consequências preocupantes se não nos prepararmos. Compara, por exemplo, o ritmo de envelhecimento entre Brasil e Canadá, que em 1950 contavam, respectivamente, com 4,9% e 11,3% de pessoas acima de 60 anos no universo de suas populações. Em 2015 o Brasil já tinha alcançado 11,9% e o Canadá 25,2% de idosos, ou seja, em apenas 65 anos, o Brasil já detinha mais idosos do que o Canadá em 1950. E em 2050 prevê que o Brasil terá uma população de idosos de 30,5%, enquanto o Canadá terá praticamente o mesmo percentual: 30,1%. Daí se extrai que enquanto o Canadá aumentará em 18,8 pontos percentuais sua população de idosos em 100 anos, o Brasil terá aumentado 25,6 pontos percentuais da mesma população.

Sem dúvida é um crescimento vertiginoso e preocupante em termos de saúde pública e economia, já que teremos proporcionalmente grande contingente de pessoas na merecida inatividade em relação a pessoas economicamente ativas. Além disso, quanto mais a pessoa envelhece, naturalmente necessitará de mais cuidados, medicamentos, internações, acompanhantes etc. O grande paradoxo é que os países desenvolvidos enriqueceram antes de envelhecerem, enquanto o Brasil envelhecerá antes de enriquecer. Preocupante? Sem dúvida. Já estamos enfrentando esses impactos hoje; imagine daqui a 30 anos!

Desse cenário sombrio, qual seria a responsabilidade de cada um de nós? Cuidarmo-nos, claro! Como? Ouvindo e colocando em prática o que nos dizem especialistas, como o Dr. Alexandre Kalache: evitar o sedentarismo, adotar dieta saudável, evitar o fumo e a ingestão excessiva de álcool e exercitar-se com regularidade e parcimônia. Enfim, preparar-se para uma vida longeva, com qualidade e o máximo de autonomia possível. Quanto mais cedo melhor. Nunca é tarde demais para começar (ou recomeçar), diz o Dr. Kalache. Não adianta viver a vida intensamente enquanto se tem saúde e esperar que o Estado lhe dê o devido amparo quando a saúde se for. É também nossa a responsabilidade de preparar o nosso próprio futuro se quisermos envelhecer e morrer com dignidade.

Diante dessa realidade que se avizinha, a Fundação Padre Albino desde já vem buscando implementar ações visando dar atendimento adequado a essa população crescente de idosos. Com o apoio incondicional da administração do Hospital Emílio Carlos, ingressamos no Programa São Paulo Amigo do Idoso, tendo conquistado, em dezembro de 2017, o Selo Inicial de Hospital Amigo do Idoso. Agora estamos preparando-nos para conquistar o Selo Intermediário.

Em recente visita da Dra. Cláudia Fló, coordenadora de Saúde do Idoso da Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo, o Comitê Hospital Amigo do Idoso do Hospital Emílio Carlos apresentou as ações obrigatórias e eletivas exigidas pelo programa paulista para obtenção do Selo Intermediário. Segundo a Dra. Cláudia, apenas 6 (seis) dos 52 (cinquenta e dois) hospitais participantes do programa possuem o Selo Pleno.

Nosso objetivo não é apenas a conquista do selo máximo do programa, mas mudança de cultura institucional no trato para com o idoso. Afinal, é lá que todos queremos chegar. E quando chegarmos, queremos ser tratados com dignidade.

José Carlos Rodrigues Amarante
Presidente da Diretoria Administrativa
da Fundação Padre Albino

Sair